Putin recebeu no Kremlin, no dia 31 de julho, a visita do príncipe
Bandar ben Sultan, chefe dos serviços secretos da Arábia Saudita mas não
foi feito qualquer comentário oficial sobre o encontro.
Um diplomata europeu com ligações em Beirute e Damasco disse que o
príncipe, que tinha reuniões normais com os homólogos dos serviços
secretos de Moscovo, "desta vez" pediu para ser recebido pelo
presidente.
Ben Sultan propôs à Rússia um contrato de armamento no valor de 15
milhões de dólares, além de investimentos "consideráveis" sauditas no
país.
Uma outra fonte disse que o príncipe comunicou a Putin que
"qualquer que seja o regime" que venha a suceder a Assad, na Síria, "vai
ficar inteiramente nas mãos dos sauditas, que não vão permitir aos
países do Golfo a passagem de gasodutos através da Síria para que a
concorrência do gás russo consumido pela Europa fosse preservada".
Em 2009, Assad recusou a assinatura de um projeto do Qatar para
construção em território sírio de um gasoduto entre o Golfo e a Europa,
para proteger a Rússia, o principal fornecedor de gás à Europa.
De acordo com um diplomata árabe com contactos em Moscovo "o presidente
Putin escutou de forma polida o interlocutor e fez saber que o país não
vai alterar a estratégia, apesar das propostas".
"Bandar ben Sultan pediu depois aos russos para compreenderem que se a
única opção é militar é preciso esquecer Genebra", acrescentou o mesmo
diplomata.
As conversações de paz de Genebra são defendidas pela Rússia e pelos Estados Unidos mas não se conhecem êxitos até ao momento.
Questionado pela AFP sobre os restantes objetivos do encontro de
Moscovo, um político sírio que não foi identificado respondeu que tal
como aconteceu com o Qatar, a Arábia Saudita considera que a política
consiste na compra de pessoas ou do país e que os sauditas não
compreendem que a Rússia é "uma grande potência" que não determina a
política dessa forma.
"A Síria e a Rússia têm relações estreitas há mais de meio século em
todos os domínios e não são os sauditas que vão fazer alterações",
acrescentou.
As relações entre Moscovo e Riade estão a ficar marcadas por alguma
tensão provocada pelo conflito na Síria, tendo Moscovo acusado Riade de
"financiar e armar os grupos terroristas e os grupos extremistas"
presentes num conflito que, segundo as Nações Unidas, já fizeram mais de
100 mil mortos.
Especialistas russos também acreditam que Putin rejeitou a oferta dos sauditas.
"Um acordo tão extremo como esse é pouco provável" disse Alexandre
Goltz, especialista em questões militares do jornal online russo da
oposição Ejednevny , acrescentando que para Putin, "Assad é uma
questão de princípio".
"Apesar de 15 milhões de dólares, uma quantia considerável e que
representa um número igual aos lucros de dois anos para a Rosobornext
(agência russa de exportação de armas) não têm qualquer efeito",
acrescentou.
"Este tipo de desinformação serve sobretudo para destabilizar Assad e o
círculo de poder em Damasco", disse Andrei Soldatov especialista
independente sobre questões de segurança.
"A posição de Assad está a reforçar-se e o Kremlin está consciente de
que a traição neste quadro é demasiado forte", sublinhou o especialista.